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domingo, 15 de janeiro de 2012

Religião ajuda criança a assimilar valores como respeito e compaixão

14:00 By Folha Newsletter , No comments

Foto: Getty Images
Segundo especialistas, simbologias religiosas simples ajudam os pequenos

“Ele saía sozinho, não perdia uma missa”, conta a mãe, Tânia Santos, que não se considera nem um pouco religiosa. “Para dizer a verdade, eu e o pai dele somos do tipo que vamos apenas a batizados e casamentos”.
Como não fazia nada aos finais de semana, João achou uma boa ideia se enturmar com o grupo da catequese, aumentando seus conhecimentos religiosos. Aos 11 começou a participar das aulas de caratê promovidas pela ordem dos Arautos do Evangelho e se destacou: foi um dos escolhidos para frequentar a associação. Cerca de um ano depois, com apenas 12 anos, passou a viver ao lado dos padres, fazendo votos de silêncio e se desligando aos poucos da família.

A busca de João Victor não foi à toa: a religião pode ser fundamental, ao menos na primeira infância. Há uma função para ela tanto do ponto de vista social como psíquico. “É o fundamento da construção moral e ética da criança, a base sem a qual tudo pode ficar solto, a criança pode ficar perdida”, afirma a psicóloga Sonia Lyra, doutora em Ciências da Religião. “Impossível não falar de Deus, porque Deus neste caso é um conceito que pode ter muitos nomes, mas cujo valor máximo é o amor”.

Por outro lado, a neutralidade dos pais diante das escolhas de João Victor não é incomum. “Muitas famílias têm optado por não criar suas crianças em um ambiente religioso, deixando que aflore naturalmente - ou não - um desejo de pertencer a uma igreja”, explica a antropóloga e professora da Universidade Federal da Paraíba Flávia Pires. O que ninguém esperava, entretanto, é que João Victor de fato optasse por seguir à risca uma carreira religiosa. Muito menos que, três anos mais tarde, trocasse o terço, a túnica e as longas botas por uma bateria e pelo rock.

“Não tínhamos dinheiro para manter o João ali. Antes ele tinha bolsa, mas houve corte e ele teve que sair. Ficou arrasado”, relata Tânia. Hoje com 19 anos, João Victor trabalha e faz faculdade de Ciências Contábeis. Vestindo a camiseta do Ramones, ninguém desconfia que um dia ele tenha vivido longas horas de silêncio absoluto e orações. “Antes disso, não gostava de música. Depois precisava suprir o que me faltava, e escolhi o rock – algo bem diferente da religião, mesmo. Hoje, já não me considero religioso”, afirma ele.

Falando sobre Deus

A psicóloga Cibele Aparecida Pejam, mestre em Ciências da Religião, concorda que a religiosidade é importante na medida em que transmite conceitos éticos e morais. “Ela apoia a personalidade, junto com a família e a escola, e faz com que nos sintamos pertencentes a um lugar”, explica. “Em última instância, a função de toda religião é fazer a ligação do ser humano com o sagrado – não importa se o sagrado é chamado de Buda, forças cósmicas, Jesus”.

Arina Ribeiro, personal trainer, tem 28 anos e nunca foi batizada. “Meus pais queriam que eu tivesse livre-arbítrio para escolher minha própria religião, e não batizei meu filho, que hoje tem 12 anos, pelo mesmo motivo”. Ela não segue nenhuma religião, embora simpatize com várias e acredite em Deus de sua maneira. “Não acho necessário ter religião para ter fé”, ressalta.

Arina considera os valores importantes para a formação da criança. “Meu filho sempre simpatizou com a religião católica, chegou a estudar em escola católica e é fascinado pelas histórias da Bíblia, sendo que eu nunca tinha aberto nenhuma”, brinca. “Ele agregou os bons valores que ensinaram para ele, mas percebe que fanatismo, seja ele qual for, é bobeira”.

Além das barbas brancas

Mas será que uma criança pequena consegue realmente entender o significado de Deus além da visão clássica do “Papai do Céu”, um personagem que vive no espaço com suas longas barbas? Ao que tudo indica, não. “Comecei a ter uma ideia abstrata de Deus depois de um ano e meio nos Arautos, porque nos aprofundamos em teologia”, comenta João Victor.

“Muitos adultos têm uma visão material também, vendo Deus como um homem barbudo”, ressalta Cibele. “Mas a partir dos sete anos a criança começa a ter uma noção maior de abstração”. Como as crianças ainda não têm condições de refletir a respeito de longos debates filosóficos, o modelo passado pela religião – um bom homem, uma estrela-guia – é capaz de ensinar aos pequenos, de forma concisa, o respeito pelos outros, a necessidade de dividir as coisas e outros valores importantes para a vida em sociedade.

Se na primeira infância a religiosidade fica a cargo dos pais, é natural que na adolescência os filhos passem a buscar outras respostas e mesmo a questionar o que foi passado em casa. Mas a permanência de valores éticos e morais pode fazer com que o jovem seja menos vulnerável a comportamentos de risco, porque ele será mais estruturado emocionalmente. “A religião não precisa ser uma instituição nos moldes católicos, ela está no respeito consigo próprio e com os outros, com a família e o mundo à sua volta”, completa Sonia Lyra.

Texto de Tatiana Araújo - delas.ig.com.br

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